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Crônicas do João

~ Penumbra ~


Um ruído em frente à casa chamou-me a atenção. Ainda bem que as luzes não tinham sido acesas, a sala estava numa penumbra onde mal se podiam distinguir os contornos dos móveis. Antes assim. No lusco-fusco do anoitecer, vi uma sombra esgueirando-se em direção à varanda, evitando os lugares luminosos. Fiquei intrigado. Quem estaria chegando, justamente naquele momento?

A porta estava trancada, graças a Deus. Mas alguém forçou o trinco pelo lado de fora, suavemente, para não chamar a atenção. Depois um silêncio, nova tentativa com o trinco, comecei a ficar apavorado. Por precaução, escondi-me sob a mesa, evitando esbarrar nos móveis. Podia ser um ladrão, eu ali sozinho, não queria enfrentar quem viesse preparado. E para minha aflição, a porta abriu-se, devagar, devagarinho, cautelosamente, e um pouco de luz da iluminação pública brilhou no assoalho bem cuidado. De pé, contra a luz, um vulto estudava o ambiente. Tratava-se, com toda a certeza, de elemento suspeito. Encolhi-me sob a mesa, como manda o bom senso nessas ocasiões.

O vulto entrou pisando manso, fechou a porta atrás de si, quase sem ruído. De ouvido, pareceu-me que havia usado uma chave. Chave?! Seria possível? Mas como a conseguira? Só havia duas cópias da chave. Como ele teria...? Será que a empregada...? Ah! mas é claro! Vai ver que... Ora, o que não se consegue hoje em dia, através de uma empregada doméstica.

O melhor agora seria esperar que ele fizesse uma limpeza. Era um tipo atarracado, baixo, ombros largos, e sem dúvida alguma estava armado. Que levasse tudo o que pudesse e não me encontrasse ali. Mas ele sentou-se. Coisa estranha. Sentou-se, esticou as pernas, cruzou as mãos na nuca e tirou um dos sapatos. Ei, não vai pegar as jóias? Tirou o outro sapato, olho para fora e ficou imóvel. Parecia muito seguro, pensava que não havia ninguém na casa.

De repente levantou-se. Ah! finalmente! E foi sem sapatos, para não fazer ruídos. Elemento experiente, pensei comigo. Mas não... ei, aí não tem jóia. Afinal o que é que você quer? Lentamente abriu o bar, tateou no escuro, pegou uma garrafa e recolocou-a no lugar. Eu não entendia mais nada. Era muito estranho. Além de tudo, parecia um tipo familiar, conhecia a casa toda e até sabia onde estava a garrafa de uísque. Não, nem tanto assim. Os copos caíram, o vulto afastou-se repentinamente do bar, segurando a garrafa e virou-se para a janela. Depois olhou para os lados, amedrontado, até acalmar-se um pouco. Recolocou os copos no lugar, pegou um deles e serviu uma dose. Repôs a garrafa, deixou o bar aberto e foi à geladeira. Sem nenhuma cerimônia, enfiou a mão na direção certa onde deveria estar o gelo. Mas sim senhor, heim! Sentou-se de novo, esticou as pernas e cruzou um pé sobre o outro. Eu ali, debaixo da mesa, cada vez mais encolhido.

Fumou dois cigarros e serviu-se três vezes de uísque. Era calmo demais para ser um bom ladrão. Quando iria começar o saque, não era possível prever. Ficou ali um tempão, parece que cochilou, e eu esperando os acontecimentos.

De repente, um barulho fora, alguém se aproximava. O vulto esticou-se ágil e postou-se atrás da porta. Meu Deus! Que será que ele vai fazer? Estive a ponto de dar um berro, mas contive a respiração. Podia ser pior. A porta abriu-se, uma mulher entrou e, no susto, deixou cair um pacote que tinha nas mãos. O sujeito atarracado de ombros largos segurou-a por trás, uma das mãos tapando a boca e sufocando o grito de terror. No meu desespero, ouvi a voz fria e cínica: "Fique quieta, que é melhor." Por algum tempo, fiquei paralisado. A mulher imóvel, parecia desmaiada. Até que o sujeito afrouxou a mão e ela, quase aos prantos gritou no desabafo:

- Ahhhhh! não faça isso comigo, que eu morro de susto.
- Por que você demorou tanto?
- Estava trabalhando, ora! E você, quantos copos já tomou? Olhaí, quebrei o presente de aniversário da Lola. Querido, não brinque assim, tem tanto assalto por aqui, eu vivo tão apavorada. Assim não deixo mais você levar a chave. E se fosse um ladrão?
- Já tinha pego as jóias e já tinha ido embora.
- Não brinque mais assim, por favor! E feche a porta, antes que entre um ladrão de verdade. Ei! cadê minhas jóias?
- Eu roubei, ué.
- É sério! Alguém abriu o cofre. Olhali, debaixo da mesa... tem um homem ali. Socorro!

Mal tive tempo de atirar uma cadeira contra as pernas do baixinho atarracado. Enquanto ele caía vociferando palavrões, precipitei-me pela porta afora, ouvindo atrás de mim os gritos da mulher.

Nunca mais assaltei naquele bairro.

Alcides João de Barros
Publicada originalmente em Jornal D'Aqui, Granja Viana, Cotia, n° 48, junho/1984.

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Alcides João de Barros é mestre e doutor pela Universidade de São Paulo.

Professor universitário, diverte-se escrevendo crônicas.

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