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Crônicas do João

~ Troca de pneu~


Mas eu tinha o quê? Vinte e poucos anos, pois o Paulinho era ainda bebê e estava lá dentro do carro, chorando que dava dó. Me lembro como se fosse hoje. Com hora marcada no pediatra, tinha de furar o pneu justamente naquele dia. Sabe quando você começa a ficar desesperada, sem saber o que fazer e com vontade de chorar também? Pois eu estava assim mesmo. Nunca tinha trocado um pneu na minha vida, mas não queria ficar ali parada com ar de vítima, esperando que algum marmanjo solícito viesse me socorrer. Por que essas coisas, você sabe: quando a mulher está dirigindo e fura o pneu, é só ela parar e descer do carro que logo chega um homem para ajudar.

É, os homens adoram mostrar às mulheres que eles é que sabem fazer as coisas. Não perdem uma oportunidade. Só que eu detesto isso. Esse negócio de homem querer fazer gentileza pra depois chamar a gente de sexo frágil não é comigo. Frágil uma ova! Quando eu tenho de fazer alguma coisa, faço mesmo, e sozinha. Não fico esperando ajuda de homem nenhum. Não que eu seja feminista ou coisa parecida, mas não suporto aquele olhar de superioridade, aquela rompança machista, aquele sorriso paternal do homem que acaba de fazer um favorzinho pra gente. Fui criada assim, agora não tem mais jeito, não vou mudar a minha personalidade.

Então eu resolvi deixar o Paulinho chorando e desci pra trocar o pneu. Não, minto: primeiro fui dar uma olhada no livrinho de instruções, porque eu já finha visto trocar pneu muitas vezes, mas sempre escapa um detalhe que a gente não pode deixar passar. Mas quem disse que eu achava esse bendito livrinho? Procurei no porta-luvas, embaixo dos bancos, na minha bolsa e nada. Sumiu mesmo. Ele está sempre lá como um trambolho, mas na hora que a gente precisa, vai procurar, cadê? Aí sim, que eu comecei a ficar aflita. Mas eu sou mesmo decidida e quando resolvo fazer alguma coisa, não tem quem me segure. Abri o porta-malas, tirei o estepe, o macaco, o triângulo e fui trocar o pneu. Parada ali eternamente eu não ia ficar, ouvindo choro de criança.

E o Paulinho chorava de cortar o coração. Mas eu sabia que assim que o carro se movimentasse de novo ele sossegaria. Armei o triângulo direitinho, peguei o macaco, pus embaixo do carro, no ponto que eu achei que era adequado e comecei a manivelar. E quem disse que o carro subia? Subia nada, menina! Você já trocou pneu alguma vez? Pois nem queira experimentar. Eu já estava suando em bicas, nunca fiz tanta força na minha vida, nunca xinguei tanto a indústria nacional que faz essas porcarias de ferramentas que não funcionam. O Paulinho uivando lá dentro do carro, eu ali brigando com o macaco, debaixo de um sol horrível, e o carro não se mexia um milímetro. Olha, nunca vou esquecer esse episódio da minha vida. Mas, no final das contas, até que eu tive sorte e, depois da vergonha que eu passei diante da delicadeza daquele homem, quando cheguei em casa naquele dia, chamei o meu marido até a garagem e disse: “Me ensina a trocar pneu, que eu não quero mais fazer papel de idiota.” Pra isso, pelo menos, serviu a lição. Agora eu sei trocar pneu, já troquei muitas vezes, mas naquele dia dei um vexame tamanho família.

No que eu estava ajoelhada ali, implorando que o macaco funcionasse, parou um carro e desceu um casal de meia idade, muito gentil, e foi a minha salvação. A mulher pegou o Paulinho no colo, pois eu estava com as mãos imundas, e ficou ninando o pobrezinho embaixo de uma árvore. O homem não disse nada. Primeiro fez uma coisa que eu não tinha feito: afrouxou os parafusos. Quando eu percebi, não é que o carro estava subindo? Num instante ele tirou um pneu, pôs outro, e eu ali olhando abobalhada, sem entender. Aí eu agradeci e elogiei o trabalho dele. Disse que era bom ter força, mas ele respondeu que não era questão de força, que talvez eu tivesse feito alguma coisa errada. Olha, eu estava com tanta raiva, tão fora de mim, que não percebia o embaraço do homem, e comecei a dizer que o macaco não prestava, que era uma droga e que não deviam fabricar uma porcaria daquelas. O homem era tão educado que não queria me magoar e dizia que o macaco era bom, que era preciso saber manejá-lo.

- Mas como é que funcionou com o senhor, e comigo não?

Com um gesto de complacência, ele respondeu:

- É que a senhora pôs o macaco de cabeça para baixo.

Alcides João de Barros
Publicada originalmente em Jornal D'Aqui, Granja Viana, Cotia, n° 34, março/1983.

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Alcides João de Barros é mestre e doutor pela Universidade de São Paulo.

Professor universitário, diverte-se escrevendo crônicas.

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